Noite calma. Aparentemente calma. Se não fosse pelos ruídos de meus pensamentos, seria a noite perfeita. Verificando a caixa de e-mails lotada de ofertas e anúncios de marcas famosas e vendo a TV, com novelas e casais perfeitos que estão, ironicamente, predestinados a ficar juntos, reparo ao espelho, o reflexo mostra uma menina sentada na cama, com cabelos desgrenhados, pijama velho, já puído do longo uso. Está bem, admito, sou eu. Sempre quis ser daquelas meninas de parar o trânsito: tentativa frustrada! Fui daquelas meninas-molecas. Pirralhona, de shortão e camiseta. Vivia pela rua brincando com meus amgos- a maioria, meninos- e o que importava era ter tempo pra diversão. Odiava amarrar os cabelos. Conforme fui crescendo, as prioridades dos meus amigos foram mudando. Brincar até tarde na rua, já não era mais atrativo. Os celulares adentraram nossas vidas e passamos à ligar mais pra nossas aparências e à necessidade de nos incluirmos em outros grupos que trouxessem felicidade compartilhada. Assim a adolescência chegou e trouxe uma explosão de novidades, mas também, de medos, inseguranças e não-aceitações.
Eu até tentei ser uma menina mais sexy, mais mulherão. Só que os estereótipos da sociedade para atender a esse requisito deixaram seus vestígios. Tentei alisamentos capilares, já que meu cabelo não atendia ao "padrão liso".e até fiz dieta, pois meu corpo não adequava-se ao tamanho P. Pensei em procurar um dentista para possíveis clareamentos e para dentes retíssimos. Desisti. Oras, eu sou assim mesma! Única, exclusiva e totalmente linda! Não que não tenha meus defeitinhos, mas com um aprimoramento, eles já já desaparecem.
Mas o que me levava a ter esses pensamentos aquele medo bobo de não ser boa o suficiente, de não ter o conteúdo que os meninos da minha idade desejavam, talvez, um medo natural para a faixa etária que eu me encontrava. Só que esse "boa o suficiente" se pautava em uma questão superficial e não de totalidade que levei tempo para aprender. Lembro da minha mãe dizendo para eu não ligar para essas questões, porque somente importava considerar a pessoa que eu realmente era. Lembro dela dizendo: "por fora bela viola, por dentro pão bolorento", se referindo às meninas que pularam fases importantes da infância apenas se preocupando com quesitos estéticos e adultos. Algumas, pude acompanhar até pouco tempo e não todas, mas a maioria, teve batalhas difíceis para travar por conta desse adiantamento todo.
Ouvi também algum dia, que o primeiro passo para mudar algo deve partir de dentro de nós e assim eu fiz. Fui procurando amor próprio até no dia em que eu estava de "cabelo ruim", "com "pneuzinhos", sem a "roupinha da moda". Olha, não foi fácil. Mas tentei. O resultado veio, mas não teve data marcada. Só sei que hoje me sinto mais gente. É, gente mesmo. Estou construindo minha identidade novamente e me olhando no espelho, com aquele mesmo pijaminha puído, sorrindo. Já dizia Saint-Exupéry: "o essencial, é invisível aos olhos". E é somente do essencial que precisamos.

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